Razão e Sensibilidade

prosop[1]

© Lyudmil K. 2015

Temos consciência de que é possível melhorarmos nossa razão ou capacidade cognitiva, mas poderíamos fazer o mesmo com a nossa sensibilidade para apreciar o que é belo?

O problema do juízo estético é aquele onde se busca definir se o prazer da apreciação do objeto da arte advém da nossa sensibilidade ou da razão. A questão do prazer estético tem uma relevância que pode ir além da nossa relação com a obra de arte ou com a beleza da natureza; é possível que esteja ligado também a nossa saúde mental e ao nosso bem-estar.

Motivação primeira: Scruton em seu livro beleza diz que “se há alguém indiferente a beleza, sem dúvida, é porque não a percebe”. Não havendo uma questão neurológica envolvida, e entendendo que todos nascemos com esta potencialidade, a da percepção do belo e do prazer que dele advém, parece limitante ou sem graça uma vida onde esta potencialidade não é exercida.

Motivação segunda: Se acreditarmos na teoria da evolução, é nosso dever continuarmos a desenvolver nossa capacidade cognitiva, talvez menos pela questão do prazer estético ou para termos bons empregos, mas para estarmos aderentes aos preceitos impostos a nós pela natureza. Acredito que esta motivação está alinhada com o pensamento de John Dewey, onde educação se justifica por ela mesma, ou seja, educação para mais educação.

Motivação terceira: As terapias mais modernas para ajudar aqueles que sofrem com depressão (sim, tem remédio que ajuda também), divórcio, perda de emprego, vida sem sentido, medo da morte, entre outros, usam a razão ou cognição do próprio paciente para que ele mesmo se ajude e encontre a solução para estes problemas (terapias como CBT, REBT, Aconselhamento Filosófico, etc. são exemplos)

Motivação quarta: Aparentemente existe uma relação entre a beleza de uma teoria científica e a verdade da mesma, ou seria a teoria científica como uma interpretação da natureza (como a arte pode ser) e por isto, bela? A verdade é que cientistas classificam teorias como belas pelo prazer estético que possuem, a meu ver uma combinação de competência intelectual e complexidade da empreitada.

O que mais sabemos: Na filosofia da mente as propostas (que são várias) para explicar como nossa mente funciona, estão, atualmente, na direção do monismo de substância, ou seja, tudo na nossa mente é físico. A Neurociência adiciona que o físico é flexível. A psicologia destaca a relação entre o inconsciente e o consciente, sendo o primeiro a base do iceberg, mas existe no mínimo uma comunicação entre o primeiro, primitivo, forte e rápido e o segundo, mais recente, fraco e lento quando comparado ao primeiro.

No debate sobre o juízo estético, existe a possibilidade de interpretarmos este como sendo um trabalho conjunto entre o sensível e o racional como se fossem duas unidades distintas. Mas aqui o convite é para vermos este trabalho sendo feito pelo todo, sensível-racional, como uno, ou seja, quando apreciamos uma obra de arte, música, poesia, uma obra arquitetônica, a natureza, uma pintura, etc., estamos simultaneamente usando nossa razão e nossa sensibilidade numa dinâmica cujos detalhes não conhecemos, mas para aquele que está tendo a experiência, estes detalhes são detalhes.

Desenvolvendo a razão desenvolvemos o uno, quer dizer, o sensível cresce por tabela. A motivação primeira, acima descrita, deve ser aquela que justifica uma empreitada tão árdua. Mas não é só o prazer (que para alguns filósofos é o nosso principal objetivo de vida), poderemos também administrar mais facilmente nossas mágoas, ansiedades e tristezas; regularemos os apelos da Fortuna, entenderemos mais sobre a vida para lhe dar sentido.

Se aceitarmos tal argumentação, é imperativo mudarmos a educação para que deixe de ser instrumental visando emprego e renda, mas que seja pelo prazer estético advindo da apreciação de obras de arte e da atividade intelectual  e assim todo o resto segue…

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